Adeus à infância  escrito em terça 25 agosto 2009 17:49

Texto que foi publicado no blog do Crítica Curta:

O filme “Silêncio e sombras” é um conto de fadas expressionista, uma animação que parece ter saído da mente de Tim Burton, mas teve origem em um lugar mais tropical: o Paraná. O trabalho em conjunto de Henrique Martins e Murilo Hauser faz com que o poema de Goethe “O rei dos elfos” tome forma.

      A paisagem é nórdica, o tema é universal: uma criança abandona o conforto de sua casa, a proteção que só nela encontra, para se aventurar na floresta em um passeio a cavalo com seu pai.

      As figuras são frágeis, literalmente frágeis, de porcelana, de vidro, podem quebrar a qualquer instante. São a personificação da fragilidade da existência humana. O pai tem uma luz dentro de si, uma lâmpada na região do tórax, ao menor movimento essa luz que os guia na noite pode se apagar.

      Pai e filho partem nessa jornada mágica de autoconhecimento. O curta é uma curta metáfora sobre a vida e a morte, adota símbolos para resumir a sua narrativa. Uma magnólia é lançada no meio da noite e se despedaça, essa flor encarna a brevidade da vida.

      A neve é um elemento muito presente, evoca a pureza da infância, um novo caminho traçado em meio ao branco. A neve também está presente em outro filme que tem a infância como tema, “Groelândia”, da Mostra Brasil 7.

      A música é um artifício utilizado como fio narrativo, a escolhida é “Erlkoenig” (O rei do elfos) de Schubert, que tem como inspiração o poema homônimo de Goethe. Ela dá o tom dos oito minutos do filme, acompanha a história, traça cada momento de emoção.

     A obra original culmina na morte da criança, no curta ela é sugerida, é muito mais a morte da infância, dos medos que a vida traz. A neve é esse universo desconhecido que todos temos que adentrar. O final escolhido pelos realizadores me pareceu mais poético do que o final do poema. É poesia audiovisual.  

Mariana Serapicos

 

 

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