“Inimigos Públicos”, por onde
começar? Posso começar pelo fato de que não sou uma super fã do
Michael Mann, mas Mann está a frente de seu tempo. Não digo isso
como se o homem fosse um visionário, mas o cineasta que consegue
imaginar como mundo vai estar quando o filme estrear (meses ou até
anos depois da pré-produção) pensa a frente de seu tempo.
O que seria de Ninotchka se o pacto de não agressão não tivesse
sido assinado justo na época de seu lançamento? Seria um filme
pró-Alemanha, pró-nazismo, como o próprio Billy Wilder temeu que
ocorresse, pois antes do tratado, ser contra a União Soviética era
ser a favor dos nazistas.
Ok, mas estou divagando...Tudo isso para falar que Michael
Mann sabia que a crise econômica chegaria! Minto...o próprio disse
que não podia imaginar, mas será que ser a frente de seu tempo não
envolve um pouco de sorte? A crise de 29, a crise de 2009...Acho um
paralelo interessante. Mesmo que o diretor afirme que a figura de
J.E. Hoover não tem nada de Bush e que as respectivas
“Guerras Contra o Terror” não passaram por sua cabeça
não deixa de chamar a atenção como a nossa História é cíclica, e
como um filme nunca é sobre a época que retrata, mas sim sobre a
época em que é feito.
Mann conta novamente a história de dois homens, dessa vez, em lados
opostos. Johnny Depp é John Dillinger, famoso ladrão de banco,
Christian Bale é Melvin Purvis, o homem visto através de seu
gatilho, “the man who is out to get him”.
Depp interpreta o personagem charmoso, carismático, Bale é contido,
sério. Muitos acreditam que Heath Ledger roubou a cena de Bale em
“Batman-The Dark Night”, discordo, Ledger tinha o papel
mais espalhafatoso, ele “tinha” que roubar a cena, mas
isso não anula Bruce Wayne; o mesmo em “Inimigos
Públicos”, Depp é o homem que brilha, Bale é a sombra e eles
só existem juntos.
A utilização de câmeras digitais conferiu ao filme uma verdadeira
sensação de imersão, efeito que o próprio Michael Mann disse que
procurou obter. Bem...Ele conseguiu! Fazemos parte da gangue de
Dillinger e da equipe frustrada de Purvis ao mesmo tempo.
Marion Cottilard e Johnny Depp são o casal apaixonado, a mulher que
não tem nada a perder e o homem que...Ganha tudo! Uma das minhas
maiores birras de casais Hollywoodianos é que eu não acredito no
romance que acontece tão rápido e me parece tão mal construído. Em
“Inimigos Públicos” ele acontece num piscar de olhos,
mas você nunca duvida.
É um exemplo de boa escrita! Purvis para Dillinger: What keeps you
up at nights? Dillinger para Purvis: Coffee. O diálogo que sai da
boca dos atores tem uma razão de ser, não são palavras cuspidas na
tela, cada frase tem seu propósito. Os diálogos são costurados,
bordados talvez? Qual seria a melhor definição?
Bem, deu para ver que gostei do filme (eu não ganho comissão ok?).
É aquele filme divertido, entretenimento (por que não?) em que você
não sai mais burro, pelo contrário, aprende de uma maneira
alternativa. Aprende o que? No mínimo, o que constrói um bom filme
(na minha humilde opinião).
Mariana Serapicos